quarta-feira, 21 de dezembro de 2011



Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação... 
Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão... 

Às vezes dá vontade de fazer tudo “errado”. 
Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos. 
Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. 
Recusar prazeres incompletos e meias porções. 

Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo. 
Um dia... 
Não tem que ser agora.



Danuza Leão

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011



O sonho já acabou; vamos encarar a realidade.
Não se drogue por não ser capaz de suportar sua própria dor.
Nenhum lugar fará você se sentir um homem.
Eu estive em todos os lugares e só me encontrei em mim mesmo.


John Lennon


Alta tensão

eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo
passar
eu sonho
os delírios mais soltos
e os gestos mais loucos
que há
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso
eu adoro voar.

                                    
                            (Bruna Lombardi)



Penso, ele há de perceber, me encosto um pouco
espero um gesto, um sinal, uma atitude
que eu possa interpretar como resposta
uma indicação
mas você é um homem sério e continua
se escondendo atrás dessas teorias
e nem te brilha no olho uma faísca de tentação.
ai, que aflição
pensar no que eu faria
se pudesse

desejo que não acontece
fica parado no peito
ai, vira obsessão.


                                                                                                                        (Bruna Lombardi)

sábado, 10 de dezembro de 2011


A Alegria na Tristeza

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.
O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.
Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.
Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.
Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.
Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.
Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada.
Triste é não sentir nada.
(Martha Medeiros)



"Porque eu tenho pesadelos que parecem tão reais até quando você me abraça.
E eu acordo triste, e brigo de verdade e passo o dia grave e dolorida como quando a gente leva um tombo no piso liso... que é só o passado.
É como se eu sentisse um ciúme horroroso do meu livro predileto comprado em sebo, a dedicatória apaixonada que não é a minha, os resquícios do manuseio de outras mãos.
Alguém corrompeu o trecho que eu mais gostava quando grifou à caneta algo que não pude apagar com borracha e que era tão secretamente meu.
Desenhou corações onde só havia minha dor e eu discordei da interpretação alheia.
E achei aquilo tudo de uma crueldade atroz.
Mas permaneci com o livro no colo, cheia de um afeto confuso por ele: afeto pelo que era, angústia por já ter sido de outro alguém, e aquela sensação (imbecil) de falta de exclusividade.
Eu que sempre achei que tudo é e está para o mundo.
Perdoa o meu senso de autoimportância, já que não consigo perdoar o meu egoísmo.
Eu sei que em alguns presentes, no embrulho, laços do passado são aproveitados.
Eu só queria que eles não fossem tão vermelhos: desses que doem nos olhos e no coração."

Marla de Queiroz

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011


Apenas uma carona!

I
Ele costumava ir para o trabalho de ônibus. Sempre! Quase uma hora de viagem. Sua rotina já estava marcada há meses. Na sexta-feira, quando contava os minutos para bater o ponto, um novo funcionário que havia começado a trabalhar há apenas uma semana, perguntou se ele queria uma carona para casa. Sem entender o motivo da pergunta, pois afinal nunca haviam trocado uma palavra sequer, respondeu que sim. “Uma carona não vai mal!”, disse complementando resposta. E com um sorriso brando, o outro respondeu “Te espero lá fora.”
II
- Você é novo por aqui?
- Me mudei tem uma semana.
- Hum... É de onde?
- Não tenho lugar. Passei a vida inteira mudando de um lugar ao outro. Talvez não seja de me prender. Talvez seja meio cigano.
- Talvez.
- E você?
- Sou daqui. Nunca saí daqui. Talvez tenha criado raízes demais.
- Gostaria de ter, mesmo que fossem fracas. Chega uma hora em que a falta sufoca.
- Falta espaço, não é?
- Não. Falta alguém.
- ...
III
Esperou o fim de semana inteiro por uma ligação apenas. Seus olhos vermelhos de sono não se compadeciam. Jurava que ligaria. As palavras que saíram de sua boca haviam o entorpecido de tal maneira, que toda a sua razão perdera-se no ar. A xícara de café sempre cheia, cigarro uma atrás do outro, o som bem baixinho. O tempo não colaborava, a chuva insistia em cair como navalhas do céu. Seu desejo era sair pela rua atrás dele, de repente, achá-lo de surpresa e sufocá-lo com um beijo quente, antes mesmo que alguma coisa pudesse ser dita, para logo em seguida dizer “Não falta mais!”. Mas apesar de jurar, ele sabia que não ligaria.
IV
Segunda-feira. Manhã. Ele esperava o soar da buzina. Cabelos penteados, roupas alinhadas... Havia um tremor em seus olhos e uma excitação sem sentido. Nada estava para acontecer, apenas uma carona. Mas mesmo assim ele desejava.

[renato ribeiro]


Queria muito que as pessoas parassem de julgar sem saber e respeitassem o silêncio dos outros, sei que as vezes é bem dificil isso, pois você não sabe o que acontece com o outro. E o silêncio as vezes é uma forma de não querer falar sobre o que acontece, mais pq não se pergunta o que acontece em vez de julgar? 
Seria tão mais facil se as coisas fossem assim! As pessoas estão acostumadas as grosserias da vida,e acabam descontando em quem nada tem a ver... E dai já virou uma imensa confusão. Essa semana e a outra foram muito corridas pra mim, super confusas e cheias de surpresas, queria somente ficar só,as vezes parece pedir muito, ainda mais quando se tem muitas coisas pra se pensar e pouco tempo pra entender tudo que está acontecendo,ainda não consegui entender muito bem. Mais pelo menos tive chance de ver coisas que antes estavam na minha frente e só eu não queria ver, agora com tudo isso pude ver, mesmo assim ainda as coisas não estão muito claras.
Parece que estou no meio do furacão,e só queria saber como faço pra sair. Sei que nada é facil mesmo, e que as pessoas tem mania de reclamar de tudo,enquanto muitos ai estão pior que nós(isso me inclui), mais tem coisas que não se explica, e eu com minhas manias loucas e confusas de me silenciar e querer que tudo se explique, me deixa pior. Gosto das coisas explicadas, organizadas e não deixadas de lado sem explicações... Mais como minha vó dizia nem tudo nessa vida se explica. Mais as vezes é bom ter uma singela explicação. Espero que tudo acabe bem e dê certo.

''Simpatia é dar em cima. Sinceridade é grosseria. “Também” é “eu te amo”. Sorriso é felicidade. Choro é depressão. Não chorar é indiferença. Gay é doença. Educação é falsidade. Internet é intelectualidade. Demonstrar é melação. Não demonstrar é desinteresse. Não Comer é anorexia. Beleza obesidade. Não comer é burrice. Feiura é encalhada. Namoro é sexo. Ficar é sexo. Sair sexta à noite é sexo.
Não é assim que as coisas funcionam, não comigo."