quarta-feira, 31 de outubro de 2012



Mude

Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.

Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama.
Depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais,
leia outros livros,
Viva outros romances!

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.
Tente o novo todo dia.O novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
A nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde, ou vice-versa.
Escolha outro mercado,
outra marca de sabonete,
outro creme dental.
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.
Troque de bolsa,
de carteira,
de malas.
Troque de carro.
Compre novos óculos,
escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Arrume um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.

Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.

Só o que está morto não muda!
Edson Marques.

domingo, 14 de outubro de 2012


Avvicini fra loro due poltrone e ti stendi come meglio puoi sotto i neon del bar della nave, le palpebre chiuse disturbate dalla televisione sintonizzata su Italia 1.


Eu hoje joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim
O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Querendo ver o mais distante e sem saber voar
Desprezando as asas que você me deu
Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares,
Mas de bailarinos
E de você e eu
Eu hoje joguei tanta coisa fora
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Cartas e fotografias gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim
Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares,
Mas de bailarinos
E de você e eu
Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares,
Mas de bailarinos
E de você e eu.

Tendo a Lua

Os Paralamas do Sucesso










  





 Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.

(Machado de Assis)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012



A modernidade vai cada vez mais ficando moderna, e eu ainda continuo achando que nasci na época errada, sou antigo, gosto do jeito de antigamente, dos gostos antigos.”
imaturo


Aonde você vê uma frase, eu posso ver um texto. Não tente me compreender, ou tirar conclusões precipitadas sobre mim. Ninguém sabe melhor que eu mesmo o que eu já passei, por onde eu andei, ou as vezes que eu quis matar todo mundo e continuei me escondendo atrás de um sorriso. Ninguém sabe, e talvez nunca saibam. A complexidade de uma pessoa é resolvida facilmente quando respeitamos e aprendemos a enxergar não só o nosso lado, mas os outros também. Não aprendi a aceitar opiniões de pessoas que não estavam caminhando comigo nas madrugadas frias que eu tentei fugir do mundo, ou de mim mesmo. Escutar não é questão de humildade, mas sim, de bom senso. Todo mundo tem um olhar clínico quando não sente a dor de quem está sendo analisado.”
Sean Wilhelm (nevasca)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012



E o que são na verdade estes meus cantos?...
Como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e do vento, eles são filhos 
da musa—este sopro do alto: do coração _ este pélago da alma.

E como as espumas são, às vezes, a flora sombria da tempestade, eles por vezes 
rebentaram ao estalar fatídico do látego da desgraça
E como também o aljofre dourado das espumas reflete as opalas, rutilantes do
arco-íris, eles por acaso refletiram o prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo— estes 
signos brilhantes da aliança de Deus com a juventude!
Mas, como  as espumas flutuantes levam, boiando nas solidões marinhas, a lágrima 
saudosa do marujo... possam eles, ó meus amigos!—efêmeros filhos de minh'ahna—levar 
uma lembrança de mim às vossas plagas!

CASTRO ALVES


Soneto LXXV
Texto: Pablo Neruda

Esta é a casa, o mar e a bandeira.
Errávamos por outros longos muros.
Não achávamos a porta nem o som
Desde a ausência como desde mortos.

E ao fim a casa abre seu silêncio,
Entramos a pisar o abandono,
Os momentos mortos, o adeus vazio,
A água que chorou no encanamento.

Chorou, chorou a casa noite e dia,
Gemeu com as aranhas*, entreaberta,
Se desgastou desde seus olhos negros,

E agora de repente a revolvemos viva,
A povoamos e não nos reconhece:
Tem que florescer, e não se acorda.