Beijo na boca todas as prostitutas,Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinosE a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.Tudo é a razão de ser da minha vida.Cometi todos os crimes,Vivi dentro de todos os crimes(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).Multipliquei-me, para me sentir,Para me sentir, precisei sentir tudo,Transbordei, não fiz senão extravasar-me,Despi-me, entreguei-rne,E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,Todos os chamamentos obscenos de gesto e olharesBatem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,Os seus half-holidays inesperados...Mary, eu sou infeliz...Freddie, eu sou infeliz...Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim ...Meu coração tribunal, meu coração mercado,Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,Meu coração banco de jardim público, hospedaria,Estalagem, calabouço número qualquer cousa(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,Meu coração postigo,Meu coração encomenda,Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.
(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,
Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,
Com as cabeças femininas coiffées de lin
E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...
Aquela que é o anel deixado em cima da cômoda,
E a fita entalada com o fechar da gaveta,
Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,
Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la ...
- ...
Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir.
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.
- ...
- Álvaro de Campos, 22-5-1916
Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...

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