domingo, 15 de julho de 2012



"Cansado. Tu olhas para o teto imaginando mil coisas,  memórias,  compromissos,  desejos,  saudades.  Te fito com dor. A luz do abajur faz sombra na tua pilha de livros, que folheei um dia e quis pedir emprestado mesmo sabendo que não havia intimidade para pedidos. Por razões que desconheço,  nossas aproximações foram sempre pela metade. Interrompidas. Um passo para a frente e cem para trás. Retrocessos. Descaminhos. Procuro sinais de algum amor teu. Vestígios de noites passadas. Tu não me vês, estou incógnita a te observar. Como sempre estive, olhando pelas janelas, de longe, coração apertado. Nós poderíamos ser amigos e trocar confidências. Assistiríamos a filmes,  taça de vinho nas mãos, e tu me detalharias as tuas paixões e desatinos. Nós poderíamos ser amantes que bebem champanhe pela manhã aos beijos num hotel em Paris.  Caminharíamos pela beira do Sena, e eu te olharia atenta, numa  tentativa  indisfarçável de gravar o momento e guardá-lo comigo até o fim dos meus dias. Ou poderíamos ser apenas o que somos,  duas pessoas com uma ligação estranha, sutilezas e asperezas subentendidas,  possibilidades de surpresas boas. Ou não. Difícil saber.  Bato minhas asas em retirada.  Tu dormes,  e nos teus sonhos mais secretos, não posso entrar. (…) E me pergunto se, quem sabe um dia, na hora certa,  nosso encontro pode acontecer inteiro."
- Caio Fernando Abreu.

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